O Nelson Rodrigues cunhou a expressão "complexo de vira-lata" para definir a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, diante do resto do mundo. Décadas se passaram, mas o diagnóstico rodriguiano nunca pareceu tão atual — e tão perigoso. A mais nova evidência desse comportamento veio a público com as declarações do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que conseguiu a proeza de sugerir que o Brasil entregue sua soberania tecnológica e suas riquezas minerais em uma "mesa de negociação" com os Estados Unidos.
A tese defendida pelo "filho 03" do ex-presidente Jair Bolsonaro beira o inacreditável. Diante da ameaça de sanções comerciais americanas motivadas por uma investigação sobre o Pix, Eduardo foi às redes sociais sugerir que o Brasil ofereça a substituição do nosso sistema de pagamentos pelo Zelle — uma ferramenta privada norte-americana — ou, em uma alternativa ainda mais desastrosa, que ceda aos EUA a exclusividade sobre as terras raras brasileiras, como o manganês, em troca da "permissão" para mantermos o Pix funcionando.
Primeiro, há um profundo desconhecimento técnico e de mercado. O Pix é, hoje, um dos maiores casos de sucesso de bancarização, inclusão digital e eficiência financeira do planeta, reconhecido e estudado internacionalmente. Trocá-lo pelo Zelle não é apenas um retrocesso tecnológico; é uma afronta à inteligência do cidadão e do empresariado brasileiro que dependem da gratuidade e da instantaneidade do sistema do Banco Central.
Segundo, e mais grave, é a lógica colonialista de barganha. Propor a entrega de recursos estratégicos como as terras raras — minerais fundamentais para a indústria de alta tecnologia, transição energética e defesa global — para aplacar o protecionismo de Washington é abrir mão do futuro do país. É agir não como um representante eleito pelo povo brasileiro, mas como um lobista dos interesses de uma potência estrangeira.
Enquanto o debate político se apequena na disputa de paternidade da ferramenta — com o presidente Lula exibindo o cartaz "o Pix é do Brasil" e o senador Flávio Bolsonaro rebatendo com "o Pix é do Brasil e do Bolsonaro" —, a proposta de Eduardo expõe uma ferida muito mais profunda. Mostra que, para determinado grupo político, a soberania nacional é uma moeda barata, descartável ao primeiro sinal de pressão da Casa Branca.
Negociar com os Estados Unidos, ou com qualquer outra nação, exige altivez, defesa mútua de interesses e respeito à própria Constituição. Sentar-se à mesa já oferecendo o desmonte de um patrimônio tecnológico nacional ou o monopólio de nossas riquezas naturais não é negociar. É render-se. O Brasil é grande demais para se comportar como colônia de quem quer que seja.
Por Danilo Telles
CEO e Diretor-Presidente do Grupo Metropolitana de Comunicação